quarta-feira, 26 de março de 2014
O Ladrão de Raios - Capítulo 7 - Meu jantar se esvai em fumaça
A notícia do incidente no banheiro se espalhou na mesma hora. Aonde quer que eu fosse, os campistas apontavam para mim e murmuravam algo sobre água de vaso sanitário. Ou talvez apenas olhassem para Annabeth, que ainda estava bastante encharcada.
Ela me mostrou mais alguns lugares: a oficina de metais (onde as crianças forjavam as próprias espadas), a sala de artes e ofícios (onde os sátiros jateavam com areia uma estátua gigante de um home-bode) e a parede para escalada, que na verdade consistia em duas paredes que se sacudiam violentamente, deixavam cair rochas, espalhavam lava e colidiam uma com a outra se a gente não chegasse ao topo bem depressa.
Finalmente retornamos ao lado de canoagem, de onde a trilha levava de volta aos chalés.
– Tenho treinamento – disse Annabeth secamente. – O jantar é às sete e meia. Você só tem de seguir o pessoal do chalé até o refeitório.
– Annabeth, desculpe pelos sanitários.
– Não importa.
– Não foi minha culpa.
Ela me olhou com ar cético e me dei conta de que tinha sido minha culpa. Eu havia feito a água jorrar no banheiro. Não entendia como. Mas os vasos tinham respondido a mim.
Era como se eu fosse um dos canos.
– Você precisa falar com o Oráculo – disse Annabeth.
– Quem?
– Não quem. O quê. O Oráculo. Vou pedir a Quíron.
Olhei para o lago, desejando que alguém me desse uma resposta direta pelo menos uma vez.
Eu não esperava que alguém estivesse olhando de volta para mim do fundo, portanto meu coração deu um pulo quando notei duas meninas adolescente sentadas de pernas cruzadas na base do píer, cerca de seis metros abaixo. Vestiam jeans e camisetas verdes cintilantes, e os cabelos castanhos flutuavam soltos em volta dos ombros enquanto peixinhos passavam por entre eles. Elas sorriram e acenaram como se eu fosse um amigo há muito perdido.
Eu não sabia que outra coisa fazer. Acenei de volta.
– Não as encoraje – advertiu Annabeth. – As náiades são flertadoras incontroláveis.
– Náiades – repeti, sentindo-me completamente estupefato. – Já chega. Quero ir para casa agora.
Annabeth franziu as sobrancelhas.
– Você não percebe, Percy? Você está em casa. Este é o único lugar na terra seguro para crianças como nós.
– Você quer dizer crianças mentalmente perturbadas?
– Eu quero dizer não-humanas. Não totalmente humanas, de qualquer modo. Meio humanas.
– Meio humanas e meio o quê?
– Acho que você sabe.
Eu não queria admitir, mas sabia, sim. Senti um formigamento nos membros, uma sensação que às vezes me tomava quando minha mãe falava sobre meu pai.
– Deusas – disse eu. – Meio deusas.
domingo, 23 de março de 2014
Baixar Steven Universe 1° Temporada Legendada
Nome Traduzido: Steven Universo
Idioma: Inglês
Legenda: PT-BR
Fansub: Noitosfera.com
Legenda Embutida: Sim
Formato de Video: MKV, MP4 e AVI
Servidor de Download: Mega e Google Docs
Upador: Gabriel Mezêncio(Gabitano Post)
Peso: 110 MBs/444 MBs
Idioma: Inglês
Legenda: PT-BR
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Legenda Embutida: Sim
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Steven Universe 00 - Piloto

Steven Universe 01 - Gem Glow

Steven Universe 02 - Laser Light Canon

Steven Universe 03 - Cheese Burger Backpack

Steven Universe 04 - Together Breakfast

Steven Universe 05 - Frybo

Steven Universe 06 - Catfingers

Steven Universe 07 - Bubble Buddies

Steven Universe 08 e 09 - Serious Steven and Tiger Millionaire

Steven Universe 10 e 11 - Steven's Lion and Arcade Mania

Breve:
12 - Giant Woman
13 - So Many Birthdays
14 - Lars and the Cool Kids
15 - Onion Trade
16 - Steven the Sword Fighter
17 - Coach Steven
18 - Lion 2: The Movie
19 - Beach Party
Obs.: Até agora nos EUA só lançou até o 15 e as legendas estão no 14.
O Ladrão de Raios - Capítulo 6 - Minha transformação em Senhor Supremos do Banheiro
Depois que assimilei o fato de meu professor de latim ser um cavalo, fizemos um passeio agradável, embora tivesse o cuidado de não andar atrás dele. Havia participado algumas vezes das rondas com pazinhas para recolher cocô de cachorro na Parada do Dia de Ação de Graças da loja Macy’s e, lamento dizer, não confiava na parte de trás de Quíron tanto quanto confiava na da frente.
Passamos pela quadra de vôlei. Diversos campistas se cutucavam. Um deles apontou para o chifre de minotauro que eu carregava. Um outro disse:
– É ele.
A maioria dos campistas era mais velho que eu. Seus amigos sátiros eram maiores que Grover, todos trotando de um lado para outro de camisetas cor de laranja do ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE, sem nada para cobrir os traseiros peludos à mostra. Eu normalmente não era tímido, mas o modo como olhavam para mim me deixou pouco à vontade. Era como se esperassem que eu desse um salto mortal ou coisa assim.
Olhei para a casa de fazenda trás de mim. Era muito maior do que eu pensara – quatro andares, azul-céu com acabamento em branco, como um hotel de veraneio de primeira classe à beira-mar.
Eu estava conferindo o cata-vento de latão em forma de águia no topo quando algo me chamou a atenção, uma sombra na janela mais alta do sótão. Alguma coisa havia mexido na cortina, só por um segundo, e tive a nítida impressão de que estava sendo observado.
– O que há lá em cima? – perguntei a Quíron. Ele olhou para onde eu estava apontando e seu sorriso desapareceu:
– Apenas o sótão.
– Mora alguém lá?
– Não – disse em tom definitivo. – Nem uma única coisa viva.
Tive a sensação de que ele falava a verdade. Mas também tinha certeza de que algo havia mexido naquela cortina.
– Venha, Percy – disse Quíron, o tom despreocupado agora um pouco forçado. – Há muito para ver.
Caminhamos pelos campos de morangos, onde campistas colhiam alqueires de morangos enquanto um sátiro tocava uma melodia numa flauta de bambu.
Quíron me contou que o acampamento cultivava uma bela safra para exportar para os restaurantes de Nova York e para o Monte Olimpo.
– Paga as nossas despesas – explicou. – E os morangos não exigem esforço quase nenhum.
Ele disse que o Sr. D produzia esse efeito sobre plantas frutíferas: elas simplesmente enlouqueciam quando ele estava por perto. Funcionava melhor com as vinhas, mas o Sr. D estava proibido de cultivá-las, portanto, em vez delas eles plantavam morangos.
Observei o sátiro tocando a flauta. A música fazia com que filas de insetos saíssem dos canteiros de morangos em todas as direções, como se fugissem de um incêndio. Imaginei se Grover podia fazer esse tipo mágica com música. Imaginei se ainda estava dentro da casa, levando broncas do Sr. D.
– Grover não vai ter muitos problemas, vai? — perguntei a Quíron. – Quer dizer... ele foi um bom protetor. Sem dúvida.
Quíron suspirou. Tirou o casaco de tweed e jogou-o por cima do seu lombo de cavalo, como uma sela.
– Grover sonha alto, Percy. Talvez mais alto do que seria razoável. Para atingir seu objetivo, ele precisa primeiro demonstrar uma grande coragem tendo sucesso como guardião, encontrando um novo campista e trazendo-o em segurança à Colina Meio-Sangue.
– Mas ele fez isso!
– Eu poderia concordar com você – disse Quíron. – Mas não cabe a mim julgar. Dioniso e o Conselho dos Anciãos de Casco Fendido devem decidir. Receio que possam não ver essa missão como um sucesso. Afinal, Grover perdeu você em Nova York, há o desventurado... ahn... destino da sua mãe. E o fato de que Grover estava inconsciente quando você o arrastou até os limites da propriedade. O conselho pode questionar se isso demonstra alguma coragem da parte de Grover.
Eu quis protestar. Nada do que acontecera havia sido por culpa de Grover. Também me sentia muito, muito culpado. Se não tivesse escapado de Grover na estação de ônibus, ele poderia não ter se envolvido em encrenca.
– Ele vai ter uma segunda chance, não vai?
Quíron retraiu-se.
– Infelizmente aquela era a segunda chance de Grover, Percy. Além disso, o conselho não estava muito ansioso em lhe dar outra oportunidade depois do que aconteceu na primeira vez, cinco anos atrás. O Olimpo sabe, eu o aconselhei a esperar mais tempo antes de tentar de novo. Ele ainda é muito pequeno para a sua idade.
– Que idade ele tem?
– Ah, vinte e oito.
– O quê! E ainda está na sexta série?
– Os sátiros amadurecem no dobro do tempo dos seres humanos, Percy. Grover teve idade equivalente à de um aluno de escola secundária nos últimos seis anos.
– Que coisa horrível.
– De fato – concordou Quíron. – De qualquer modo, Grover está atrasado, mesmo pelos padrões de sátiro, e ainda não avançou muito em magia dos bosques. O pobre estava ansioso por perseguir o seu sonho. Talvez agora encontre alguma outra carreira...
– Isso não é justo! – disse eu. – O que aconteceu na primeira vez? Foi mesmo assim tão ruim?
Quíron desviou os olhos depressa.
– Vamos andando?
Mas eu ainda não estava pronto para mudar de assunto. Uma coisa me ocorrera quando Quíron falou sobre o destino de minha mãe, como se estivesse intencionalmente evitando a palavra morte. O princípio de uma ideia - uma pequenina e esperançosa chama - começou a se formar em minha cabeça.
– Quíron – disse eu. – Se os deuses, o Olimpo e tudo isso são reais...
– Sim, criança?
– Isso significa que o Mundo Inferior também é real? – A expressão de Quíron se fechou.
– Sim, criança. – Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras cuidadosamente. – Há um lugar para onde vão os espíritos após a morte. Mas por ora... até que saibamos mais...eu recomendaria que tirasse isso de sua cabeça.
– O que quer dizer com "até que saibamos mais"?
– Venha, Percy. Vamos ver os bosques.
Quando nos aproximamos, me dei conta de como a floresta era enorme. Tomava pelo menos um quarto do vale, com árvores tão altas e largas que a impressão era de que ninguém entrara lá desde os nativos americanos.
Quíron disse:
– Os bosques têm provisões, se você quiser tentar a sorte, mas armado, é claro.
– Provisões de quê? – perguntei. – Armado com o quê?
– Você verá. O jogo Capture a Bandeira é na sexta-feira à noite. Você tem a sua própria espada e escudo?
– Minha própria...?
– Não – disse Quíron. – Não creio que tenha. Acho que o tamanho cinco vai servir. Mais tarde vou visitar o arsenal.
Quis perguntar que tipo de acampamento de verão tem um arsenal, mas havia muito mais a pensar, portanto o passeio continuou. Vimos a linha de tiro com arco-e-flecha, o lago de canoagem, os estábulos (dos quais Quíron parecia não gostar muito), a linha de lançamento de dardo, o anfiteatro para cantoria e a arena onde Quíron disse que eles realizavam lutas de espadas e lanças.
– Lutas de espadas e lanças? – perguntei.
– Desafios entre chalés e coisas assim – explicou ele. – Não são letais. Normalmente. Ah, sim, e há também o refeitório. – Quíron apontou para um pavilhão ao ar livre emoldurado por colunas gregas brancas sobre uma colina que dava para o mar. Havia uma dúzia de mesas de piquenique de pedra. Sem telhado. Sem paredes.
– O que vocês fazem quando chove? – perguntei.
Quíron me olhou como se eu tivesse ficado meio maluco.
– Ainda assim temos de comer, não temos?
Resolvi deixar para lá.
Finalmente, ele me mostrou os chalés. Havia doze deles aninhados no bosque junto ao lago. Estavam dispostos em U, dois na frente e cinco enfileirados de cada lado. E eram, sem dúvida, o mais estranho conjunto de construções que já vi. A não ser pelo fato de cada um ter um grande número de latão acima da porta (ímpares do lado esquerdo, pares do direito), eram totalmente diferentes um do outro. O número 9 tinha chaminés como uma minúscula fábrica. O número 4 tinha tomateiros nas paredes e uma cobertura feita de grama de verdade. O 7 parecia feito de um ouro sólido que reluzia tanto à luz do sol que era quase impossível de se olhar. Todos davam para uma área comum mais ou menos do tamanho de um campo de futebol, pontilhada de estátuas gregas, fontes, canteiros de flores e um par de cestos de basquete (o que era mais a minha praia). No centro do campo havia uma enorme área de pedras com uma fogueira. Muito embora fosse uma tarde quente, o fogo ardia de modo lento.
Uma menina com cerca de nove anos estava cuidando das chamas, cutucando os carvões com uma vara.
O par de chalés à cabeceira do campo, números 1 e 2, pareciam mausoléus casadinhos, grandes caixas de mármore branco com colunas pesadas na frente. O chalé 1 era o maior e mais magnífico dos doze.
As portas de bronze polido cintilavam como um holograma, de tal modo que, vistas de ângulos diferentes, raios pareciam atravessá-las. O chalé 2 era de certo modo mais gracioso, com colunas mais finas encimadas com romãs e flores. As paredes eram entalhadas com imagens de pavões.
– Zeus e Hera? – adivinhei.
– Correto – disse Quíron.
– Os chalés parecem vazios.
– Diversos chalés estão vazios, é verdade. Ninguém jamais fica no 1 ou 2.
Certo. Então cada chalé tinha um deus diferente como mascote e chalés para os doze olimpianos. Mas por que alguns estariam vazios?
Parei na frente do primeiro chalé da esquerda, o número 3.
Não era alto e imponente como o chalé 1, mas comprido, baixo e sólido. As paredes externas eram de pedras cinzentas rústicas salpicadas de pedaços de conchas e coral, como se as pedras tivessem sido cortadas diretamente do fundo do oceano. Espiei para dentro da porta aberta e Quíron disse:
– Ih, eu não faria isso!
Antes que ele pudesse me puxar de volta, senti o odor salgado do interior, como o vento na praia de Montauk. As paredes internas brilhavam como madrepérola. Havia seis beliches vazios com lençóis de seda virados para baixo. Mas não havia indício de que alguém já tivesse dormido lá. O lugar parecia tão triste e solitário que fiquei contente quando Quíron pôs a mão no meu ombro.
– Vamos, Percy.
A maioria dos outros chalés estava abarrotada de campistas.
O numero 5 era vermelho vivo – uma pintura muito malfeita, como se a cor tivesse sido jogada a esmo com baldes e mãos. O telhado era forrado de arame farpado. Uma cabeça de javali empalhada estava pendurada acima da porta e seus olhos pareciam me seguir. Dentro pude ver um bando de meninos e meninas mal-encarados, disputando queda de braço e discutindo enquanto o rock tocava às alturas. A mais barulhenta era uma menina de talvez treze ou quatorze anos. Usava uma camiseta do ACAMAPMENTO MEIOSANGUE tamanho GGG embaixo de um casaco camuflado. Ela mirou em mim e lançou um maldoso olhar de desprezo. Fez lembrar Nancy Bobofit, só que a menina do acampamento era muito maior e de aparência mais cruel, seu cabelo era comprido, esticado e castanho, em vez de vermelho.
Continuei andando, tentando ficar longe dos cascos de Quíron.
– Ainda não vimos os centauros – observei.
– Não – disse Quíron chateado. – Infelizmente, meus parentes são uma gente selvagem e bárbara. Você pode encontrá-los no mato ou em eventos desportivos importantes. Mas não verá nenhum aqui.
– Você disse que seu nome é Quíron. Você é mesmo...
Ele sorriu para mim.
– O Quíron das histórias? Instrutor de Hércules e tudo aquilo? Sim, Percy, eu sou.
– Mas você não devia estar morto?
Quíron fez uma pausa, como se a pergunta o intrigasse.
– Honestamente, não sei nada sobre devia. A verdade é que eu não posso estar morto. Entenda, há muitas eras os deuses concederam meu desejo. Pude continuar o trabalho que adorava. Pude ser um mestre de heróis enquanto a humanidade precisasse de mim. Ganhei muito com aquele desejo... e renunciei a muito. Mais ainda estou aqui, portanto só posso presumir que ainda sou necessário.
Pensei sobre ser um professor de três mil anos. Isso não estaria na minha lista das Dez Coisas Mais Desejadas.
– Isso nunca fica chato?
– Não, não – disse ele. – Horrivelmente deprimente às vezes, mas nunca chato.
– Por que deprimente?
Quíron pareceu ficar com alguma deficiência auditiva de novo.
– Ah, olhe – disse ele. – Annabeth está esperando por nós.
A menina loira que eu conhecera na Casa Grande estava lendo um livro na frente do último chalé da esquerda, o número 11.
Quando nos aproximamos, ela olhou para mim com um ar crítico, como se ainda estivesse pensando em como eu babava.
Tentei ver o que ela estava lendo, mas não consegui distinguir o título. Achei que fosse minha dislexia em ação. Então me dei conta de que o título não era sequer em inglês. As letras pareciam grego para mim. Quer dizer, literalmente grego. Havia figuras de templos e estátuas e diferentes tipos de colunas, como em um livro de arquitetura.
– Annabeth – disse Quíron – eu tenho aula de arco-e-flecha para mestres ao meio-dia. Você cuidaria de Percy a partir daqui?
– Sim, senhor.
– Chalé 11 – disse Quíron para mim, fazendo um gesto em direção à porta. – Sinta-se em casa.
Entre todos os chalés, o 11 era o que mais parecia um velho chalé comum de acampamento de verão, com ênfase no velho. A soleira estava desgastada, a pintura marrom, descascando. Acima do vão da porta havia um daqueles símbolos de médico, um bastão alado com duas serpentes enroscadas nele. Como é mesmo que chamavam aquilo? Um caduceu.
Dentro, estava abarrotado de gente, meninos e meninas, em muito maior número que os beliches. Sacos de dormir estavam espalhados por todo piso. Parecia um ginásio onde a Cruz Vermelha estabelecera um centro de refugiados.
Quíron não entrou. A porta era muito baixa para ele. Mas quando os campistas o viram, todos se puseram em pé e fizeram uma reverência respeitosa.
– Então tudo bem – disse Quíron. – Boa sorte, Percy. Vejo você no jantar.
Ele partiu a galope ruma à linha de arco-e-flecha.
Fiquei em pé no vão da porta, olhando para a garotada. Não estavam mais se curvando. Olhavam para mim, medindo-me com os olhos. Conheço essa rotina. Havia passado por ela em muitas escolas.
– Tudo bem – instigou Annabeth. – Vá em frente.
Então, naturalmente, tropecei ao passar pela porta e fiz um completo papel de bobo. Houve algumas risadinhas dos campistas, mas nenhum deles disse nada.
Annabeth anunciou:
– Percy Jackson, apresento-lhe o chalé 11.
– Normal ou indeterminado? – perguntou alguém.
Eu não sabia o que dizer, mas Annabeth disse:
– Indeterminado.
Todos gemeram.
Um cara que era um pouco mais velho que o restante chegou para frente.
– Vamos, vamos, campistas. É para isso que estamos aqui. Bem-vindo, Percy. Você pode ficar com aquele ponto no chão logo ali.
O cara tinha cerca de dezenove anos e parecia muito legal. Era alto e musculoso, com cabelo com cor de areia aparado curto e um sorriso amigável. Usava uma camiseta regata laranja, calças cortadas, sandálias e um colar de couro com cinco contas de argila em cores diferentes. A única coisa perturbadora na sua aparência era uma grossa cicatriz branca que corria desde logo abaixo do olho direito até o queixo, como um antigo corte de faca.
– Este é Luke – disse Annabeth, e sua voz pareceu mudar um pouco. Dei uma olhada nela e poderia ter jurado que estava ficando vermelha. Ela me viu olhando e sua expressão endureceu de novo. – Ele é seu conselheiro por enquanto.
– Por enquanto? – perguntei.
– Você é indeterminado – explicou Luke pacientemente. – Eles não sabem em que chalé acomodá-lo, então você está aqui. O chalé 11 recebe todos os recém-chegados, todos os visitantes. Naturalmente Hermes, nosso patrono, é o deus dos viajantes.
Olhei para o minúsculo espaço de chão que eles me deram. Eu não tinha nada para pôr ali e marcá-lo como meu, nenhuma bagagem, nenhuma roupa, nenhum saco de dormir.
Apenas o chifre do Minotauro. Pensei em colocá-lo ali, mas então lembrei que Hermes era também o deus dos ladrões.
Corri os olhos pelos rostos dos campistas, alguns mal-humorados e desconfiados, outros com um sorriso idiota, alguns me olhando como se esperassem uma oportunidade de limpar os meus bolsos.
– Quanto tempo vou ficar aqui? – perguntei.
– Boa pergunta – disse Luke. – Até você ser determinado.
– Quanto tempo isso vai levar?
Todos os campistas riram.
– Venha – disse Annabeth. – Vou lhe mostrar o pátio de vôlei.
– Eu já vi.
– Venha.
Ela agarrou meu pulso e me arrastou para fora. Pude ouvir o pessoal do chalé dando risadas atrás de mim.
Quando estávamos a poucos metros de distancia, Annabeth disse:
– Jackson, você precisa fazer melhor do que isso.
– O quê?
Ela revirou os olhos e murmurou baixinho:
– Não posso acreditar que achei que você fosse o cara.
– Qual é o seu problema? – Eu agora estava ficando zangado. – Tudo o que sei é que matei um sujeito-touro...
– Não fale assim! – disse Annabeth. – Você sabe quantos neste acampamento gostariam de ter tido a sua chance?
– De ser mortos?
– De enfrentar o Minotauro! Para que você acha que nós somos treinados?
Eu sacudi a cabeça.
– Olhe, se a coisa contra a qual eu lutei era realmente o Minotauro, o mesmo das histórias...
– Sim.
– Então só existe um.
– Sim.
– E ele morreu, tipo um zilhão de anos atrás, certo? Teseu o matou no labirinto.
Portanto...
– Monstros não morrem, Percy. Eles podem ser mortos. Mas eles não morrem.
– Ah, obrigado. Agora entendi tudo.
– Eles não têm alma, como você e eu. Você pode bani-los por algum tempo, talvez até por todo uma vida, se tiver sorte. Mas eles são forças primitivas. Quíron os chama de arquétipos. No fim, eles se reconstituem.
Pensei na Sra. Dodds.
– Você quer dizer que se eu matei um, acidentalmente, com uma espada...
– A Fúr... Quer dizer, a sua professora de matemática. Está certo. Ela ainda está lá fora. Você apenas a deixou muito, muito zangada.
– Como você sabe da Sra. Dodds?
– Você fala dormindo.
– Você quase a chamou de alguma coisa. Uma Fúria? Elas são torturadoras de Hades, certo?
Annabeth olhou nervosamente para o chão, como se esperasse que ele se abrisse e a engolisse.
– Você não deve chamá-las pelo nome, mesmo aqui. Se acabamos tendo de falar nelas, nós as chamamos de as Benevolentes.
– Puxa, existe alguma coisa que se possa dizer sem que haja trovões? – Eu soei reclamão, até para mim mesmo, mas naquele momento não me importei. – Por que tenho de ficar no chalé 11, afinal? Por que fica todo mundo amontoado? Há uma porção de beliches vazios logo ali.
Apontei para os primeiros chalés e Annabeth empalideceu.
– A gente não escolhe simplesmente um chalé, Percy. Depende de quem são seus progenitores. Ou... o seu progenitor.
Ela olhou fixamente para mim, esperando que eu entendesse.
– Minha mãe é Sally Jackson – disse eu. – Trabalha na doceria da Grande Estação Central. Pelo menos trabalhava.
– Sinto muito pela sua mãe, Percy. Mas não é isso que eu quis dizer. Estou falando sobre seu outro progenitor. Seu pai.
– Ele está morto. Não cheguei a conhecê-lo.
Annabeth suspirou. Era claro que já tivera aquela conversa com outras crianças:
– Seu pai não está morto, Percy.
– Como pode dizer isso? Você o conhece?
– Não, é claro que não.
– Então como você pode dizer...
– Porque eu conheço você. Você não estaria aqui se não fosse um de nós.
– Você não sabe nada a meu respeito.
– Não? – Ela ergueu uma sobrancelha. – Aposto que você ficou passando de escola em escola. Aposto que foi expulso de uma porção delas.
– Como...
– Teve diagnóstico de dislexia. Provavelmente transtorno do déficit de atenção também.
Tentei engolir meu constrangimento.
– O que isso tem a ver?
– Tudo junto, é quase um sinal certo. As letras flutuam para fora da página quando você lê, certo? Isso é porque a sua mente está fisicamente programada para o grego antigo. E o transtorno do déficit de atenção... você é impulsivo, não consegue ficar quieto na classe. Isso são os seus reflexos de campo de batalha. Numa luta real, eles o manterão vivo. Quanto aos problemas de atenção, isso é porque enxerga demais, Percy, e não de menos. Seus sentidos são mais aprimorados que os de um mortal comum. É claro que os professores querem que você seja medicado. Eles são em maioria monstros. Não querem que você os veja como são.
– Você parece... você passou pelas mesmas coisas?
– A maioria das crianças daqui passou. Se você não fosse um de nós, não poderia ter sobrevivido ao Minotauro, e muito menos à ambrosia e ao néctar.
– Ambrosia e néctar.
– A comida e a bebida que estávamos dando a você para curá-lo. Aquilo teria matado um garoto normal. Teria transformado seu sangue em fogo e seus ossos em areia e você estaria morto. Encare os fatos. Você é um meio-sangue.
Um meio-sangue.
Minha cabeça estava girando com tantas perguntas que eu não sabia por onde começar.
– Ora, ora! Um novato!
Eu dei uma olhada. A menina grandalhona do chalé feio e vermelho vinha andando lentamente em nossa direção. Havia três outras meninas atrás dela, todas grandes, feias e de aparência malvada como ela, todas usando casacos camuflados.
– Clarisse – suspirou Annabeth –, por que você não vai polir sua lança ou coisa assim?
– Claro, Srta. Princesa – disse a grandalhona. – Para poder atravessar você com ela na sexta-feira à noite.
– Erre es korakas! – disse Annabeth, o que eu de algum modo entendi que era “Vá para os corvos!” em grego, embora tivesse a sensação de que devia ser uma praga pior do que parecia. – Você não tem chance.
– Vamos transformá-la em pó – disse Clarisse, mas seu olho se crispou. Talvez ela não tivesse certeza de poder cumprir a ameaça. Voltou-se para mim. – Quem é esse nanico?
– Percy Jackson – disse Annabeth –, esta é Clarisse, filha de Ares.
Eu pisquei.
– Tipo... o deus da guerra?
Clarisse sorriu desdenhosa.
– Você tem algum problema com isso?
– Não – disse eu, recobrando minha presença de espírito. – Isso explica o mau cheiro.
Clarisse rosnou.
– Nós temos uma cerimônia de iniciação para novatos, Persiana.
– Percy.
– Seja o que for. Venha, vou lhe mostrar.
– Clarisse... – Annabeth tentou dizer.
– Fique fora disso, espertinha.
Annabeth pareceu ofendida, mas ficou de fora, e eu realmente não queria a ajuda dela.
Eu era o novato. Tinha de construir minha própria reputação.
Entreguei a Annabeth meu chifre de minotauro e me preparei para a luta, mas antes que eu percebesse Clarisse tinha me segurado pelo pescoço e me arrastava na direção de um edifício de blocos de concreto que percebi imediatamente que era o banheiro.
Eu chutava e dava murros no ar. Já tinha estado em muitas brigas antes, mas aquela Clarisse grandalhona tinha mãos de ferro. Arrastou-me para dentro do banheiro das meninas. Havia uma fileira de vasos sanitários de um lado e uma fileira de chuveiros do outro. Cheirava como qualquer banheiro público, e eu estava pensando – tanto quanto podia pensar com Clarisse me arrancando os cabelos – que se aquele lugar pertencia aos deuses, eles deviam poder comprar privadas melhores.
As amigas de Clarisse estavam todas rindo, e eu tentava encontrar a força que usara para enfrentar o Minotauro, mas ela simplesmente não estava lá.
– Como se ele fosse dos “Três Grandes” – disse Clarisse, me empurrando em direção a um dos vasos. – Certo. O Minotauro provavelmente caiu na risada, de tão bobo que ele parecia.
As amigas abafaram o riso.
Annabeth ficou no canto, observando através dos dedos.
Clarisse me forçou sobre os joelhos e começou a empurrar minha cabeça para dentro do vaso sanitário, que fedia a canos enferrujados e, bem, ao que vai para dentro de vasos sanitários. Fiz esforço para manter a cabeça erguida. Estava olhando para a água imunda e pensando: eu não vou enfiar a cabeça naquilo. Não vou.
Então algo aconteceu. Senti uma pressão violenta na boca do estômago. Ouvi os encanamentos roncando, os canos estremeceram. A mão de Clarisse no meu cabelo afrouxou. A água pulou para fora do vaso, formando um arco por cima da minha cabeça, e em seguida me vi estatelado sobre os ladrilhos do piso do banheiro com Clarisse berrando atrás de mim.
Eu me virei bem no momento em que a água explodiu para fora do vaso outra vez, atingindo Clarisse bem no rosto com tanta força que a fez cair de traseiro no chão. A água continuou jorrando em cima dela como o jato de uma mangueira de incêndio, empurrando-a para trás, para dentro de um boxe de chuveiro.
Ela se debateu, esbaforida, e as amigas começaram a ir em sua direção. Mas então os outros vasos também explodiram, e mais seis jorros de água de privada as empurravam de volta. Os chuveiros também entraram em ação e, em conjunto, todos os dispositivos lançaram as meninas camufladas para fora do banheiro, fazendo-as rodopiar como pedaços de lixo sendo removidos com jatos d’água.
Assim que elas foram postas porta afora, sentia a pressão nas minhas entranhas se aliviar, e a água parou de jorrar tão depressa quanto começara.
O banheiro inteiro estava inundado. Annabeth não tinha sido poupada. Estava toda molhada e pingando, mas não fora empurrada para fora. Estava de pé exatamente no mesmo lugar me olhando em estado de choque.
Olhei para baixo e me dei conta de que estava sentado no único ponto seco em todo o recinto. Havia um círculo de piso seco em volta de mim. Não havia nem uma gota d’água nas minhas roupas. Nada.
Levantei com as pernas trêmulas.
Annabeth disse:
– Como você...
– Eu não sei.
Caminhamos até a porta. Do lado de fora, Clarisse e as amigas estavam paradas na lama e um bando de outros campistas se reunira em volta para olhar, perplexos. O cabelo de Clarisse estava colado no rosto. O casaco camuflado estava encharcado e ela cheirava a esgoto. Ela me lançou um olhar de ódio absoluto.
– Você está morto, novato. Está totalmente morto.
Talvez eu devesse ter deixado pra lá, mas disse:
– Quer gargarejar com água da privada de novo, Clarisse? Cale essa boca.
As amigas tiveram de segurá-la. Arrastaram-na para o chalé 5, enquanto os outros campistas abriam caminho para evitar seus membros que esperneavam.
Annabeth olhou para mim. Eu não sabia dizer se ela estava apenas enjoada ou zangada comigo por encharcá-la.
– O que foi? – perguntei. – O que está pensando?
– Estou pensando – disse ela – que quero você no meu time para capturar a bandeira.

sábado, 22 de março de 2014
O Ladrão de Raios - Capítulo 5 - Eu jogo pinochle com um cavalo
Tive sonhos estranhos, cheios de animais de estábulos. A maioria queria me matar. O restante queria comida. Devo ter acordado várias vezes, mas o que ouvi e vi não fazia sentido, então adormecia de novo. Lembro-me de estar deitado em uma cama macia, sendo alimentado com colheradas de alguma coisa que tinha gosto de pipoca com manteiga, só que era pudim.
A menina com o cabelo loiro encaracolado pairava acima de mim com um sorriso afetado enquanto limpava as gotas de meu queixo com a colher.
Quando ela viu meus olhos abertos, perguntou:
– O que vai acontecer no solstício de verão?
Eu consegui resmungar:
– O quê?
Ela olhou em volta, como se estivesse com medo de que alguém ouvisse.
– O que está acontecendo? O que foi roubado? Nós só temos algumas semanas!
– Desculpe – murmurei. – Eu não...
Alguém bateu à porta, e a menina rapidamente encheu minha boca de pudim.
Quando acordei novamente, a menina tinha ido embora.
Um sujeito loiro e forte, como um surfista, estava no canto do quarto me vigiando.
Tinha olhos azuis – pelo menos uma dúzia deles – nas bochechas, nas testas, nas costas das mãos.
Quando finalmente voltei a mim de vez, não havia nada de estranho com o lugar ao meu redor, a não ser que era mais agradável do que eu estava acostumado. Estava sentado numa espreguiçadeira em uma enorme varanda, olhando ao longo de uma campina para colinas verdejantes à distância. A brisa tinha cheiro de morangos. Havia uma manta sobre as minhas pernas, um travesseiro atrás do pescoço. Tudo isso era ótimo, mas minha boca me dava a sensação de ter sido usada como ninho por um escorpião. A língua estava seca e pegajosa, e todos os dentes doíam. Sobre a mesa ao lado havia bebida num copo alto. Parecia suco de maçã gelado, com um canudinho verde e um
guarda-chuva de papel enfiado em uma cereja. Minha mão estava tão fraca que quase derrubei o copo quando passei os dedos em volta dele.
– Cuidado – disse uma voz familiar.
Grover estava apoiado no gradil da varanda, e parecia não dormir havia uma semana.
Embaixo de um braço, segurava uma caixa de sapatos. Estava usando jeans, tênis de cano alto Converse e uma camiseta laranja-claro com os dizeres ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE. Apenas o velho Grover. Não menino-bode.
Quem sabe não tive um pesadelo? Talvez minha mãe estivesse bem. Ainda estávamos de férias e tínhamos parado ali naquela grande casa por alguma razão. E...
– Você salvou minha vida – disse Grover. – Eu... bem, o mínimo que eu podia fazer... voltei na colina. Achei que você poderia querer isso.
Reverentemente, ele colocou a caixa de sapatos em meu colo.
Dentro havia um chifre de touro branco-e-preto, a base irregular por ter sido quebrada, a ponta salpicada de sangue seco. Não tinha sido um pesadelo.
– O Minotauro – disse eu.
– Ahn, Percy, não é uma boa idéia...
– É assim que o chamam nos mitos gregos, não é? – perguntei. – O Minotauro. Meio homem, meio touro.
Grover mudou de posição, pouco à vontade.
– Você ficou desacordado por dois dias. Do que se lembra?
– Minha mãe. Ela está mesmo...
Ele abaixou os olhos.
Olhei ao longo da campina. Havia pequenos bosques, um riacho sinuoso, campos de morangos espalhados embaixo do céu azul. O vale era cercado por colinas ondulantes, e a mais alta, bem na nossa frente, era a que tinha o grande pinheiro no topo. Mesmo isso parecia bonito à luz do sol.
Minha mãe se fora. O mundo inteiro deveria estar escuro e frio. Nada devia parecer bonito.
– Desculpe – fungou Grover. – Eu sou um fracasso. Eu... sou o pior sátiro do mundo.
Ele gemeu, batendo o pé com tanta força que ele saiu, quer dizer, o tênis Converse saiu. Dentro, estava recheado de isopor, a não ser por um buraco em forma de casco.
– Oh, Styx! – murmurou ele.
Um trovão ecoou no céu claro.
Enquanto ele lutava para pôr o casco de volta no falso pé, pensei: Bem, isso resolve as coisas.
Grover era um sátiro. Podia apostar que, s raspasse o cabelo castanho cacheado, encontraria pequenos chifres em sua cabeça.
Mas eu me sentia infeliz demais para me importar com a existência de sátiros ou mesmo minotauros. O importante era que minha mãe realmente tinha sido espremida para o nada, dissolvida em luz amarela.
Eu estava sozinho. Um órfão. E teria de viver com... Gabe Cheiroso? Não. Isso jamais iria acontecer. Preferia viver nas ruas. Fingiria ter dezessete anos e me alistaria no exército. Faria alguma coisa.
Grover ainda estava fungando. O pobre garoto – pobre bode, ou sátiro, ou o que for – parecia estar esperando levar um murro.
– Não foi sua culpa – disse eu.
– Foi, sim. Eu devia protegê-lo.
– Minha mãe pediu para você me proteger?
– Não. Mas é isso que faço. Sou um guardião. Pelo menos... eu era.
– Mas por que...
De repente senti uma vertigem, minha visão rodando.
– Não se esforce demais – disse Grover. – Aqui.
Ele me ajudou a segurar o copo e eu levei o canudinho aos lábios.
Recuei com o gosto, porque estava esperando suco de maçã. Não tinha nada a ver com isso. Era gosto de biscoito com pedacinhos de chocolate. Biscoito líquido. E não qualquer biscoito – os biscoitos azuis da minha mãe com pedacinhos de chocolate, amanteigados e quentes, o chocolate ainda derretendo. Ao beber aquilo, meu corpo inteiro se sentiu bem, aquecido e cheio de energia. Minha tristeza não foi embora, mas era como se minha mãe tivesse acabado de acariciar minha bochecha e me dar um biscoito, como costumava fazer quando eu era pequeno, e tivesse dito que tudo ia ficar bem.
Antes de me dar conta, já tinha esvaziado o copo inteiro. Olhei para dentro dele e, com certeza, não era uma bebida quente, pois os cubos de gelo não tinham nem derretido.
– Estava bom? – perguntou Grover.
Fiz que sim com a cabeça.
– Que gosto tinha?
Ele pareceu tão suplicante que me senti culpado.
– Desculpe. Devia ter deixado você provar.
Os olhos deles se arregalaram.
– Não! Não foi isso que eu quis dizer. Eu só... fiquei curioso.
– Biscoitos com pedacinhos de chocolate – disse eu. – Os da minha mãe. Feitos em casa.
Ele suspirou.
– E como se sente?
– Como se fosse capaz de jogar Nancy Bobofit a cem metros de distancia.
– Isso é bom – disse ele. – Isso é bom. Não acho que você deva se arriscar a tomar mais disso aí.
– O que quer dizer?
Ele pegou meu copo com cautela, como se fosse dinamite, e o colocou de volta na mesa.
– Vamos. Quíron e o Sr. D estão esperando.
A varanda circundava toda a casa da fazenda.
Senti as pernas trêmulas tentando andar toda aquela distância. Grover se ofereceu para carregar o chifre do Minotauro, mas eu me agarrei a ele. Tinha pago um preço alto por aquele suvenir. Não iria largá-lo.
Quando demos a volta até o lado oposto da casa, parei para recuperar o fôlego.
Devíamos estar na costa norte de Long Island, porque daquele lado da casa o vale seguia até a água, que cintilava a cerca de um quilômetro de distancia. Entre a casa e lá, eu simplesmente não consegui processar tudo o que estava vendo. A paisagem era pontilhada de construções que lembravam a arquitetura grega antiga – um pavilhão a céu aberto, um anfiteatro, uma arena circular – só que pareciam novos em folha, as colunas de mármore branco reluzindo ao sol. Em uma quadra de areia próxima, uma dúzia de crianças e sátiros jogavam voleibol. Canoas deslizavam por um pequeno lago.
Crianças de camiseta laranja-clara como a de Grover acorriam umas atrás das outras em volta de um grupamento de chalés no meio do bosque. Algumas praticavam arco e flecha em alvos. Outras montavam cavalos em uma trilha arborizada e, a não ser que eu estivesse tendo alucinações, alguns cavalos tinham asas.
Na extremidade da varanda, dois homens estavam sentados frente a frente em uma mesa de carteado. A menina de cabelos loiros que me alimentara com colheradas de pudim com sabor de pipoca estava apoiada no gradil da varanda, ao lado deles.
O homem de frente para mim era pequeno, mas gorducho. Tinha nariz vermelho, grandes olhos chorosos e cabelo cacheado tão preto que era quase roxo. Parecia uma daquelas pinturas de anjos-bebês, como se chamam mesmo... surubins? Não, querubins. É isso. Ele parecia um querubim que chegou a meia idade em um acampamento de trailers. Usava uma camisa havaiana com estampa de tigres e teria se encaixado perfeitamente em uma das rodas de pôquer de Gabe, só que eu tive a sensação de que esse cara poderia ter ganhado até do meu padrasto.
– Aquele é o Sr. D – murmurou Grover para mim. – Ele é o diretor do acampamento. Seja educado. A menina é Annabeth Chase. Ela é só uma campista, mas está aqui há mais tempo que quase todo mundo. E você já conhece Quíron...
Ele apontou para o cara que estava de costas para mim.
Primeiro, percebi que ele estava sentado em uma cadeira de rodas. Depois reconheci o casaco de tweed, o cabelo castanho ralo, a barba desalinhada.
– Sr. Brunner! – exclamei.
O professor de latim voltou-se e sorriu para mim. Os olhos estavam com aquele brilho travesso de quando ele fazia uma prova-surpresa e todas as respostas da múltipla escolha eram B.
– Ah, bom, Percy – disse ele. – Agora já temos quatro para o pinochle.
Ele me ofereceu uma cadeira à direita do Sr. D, que olhou para mim com olhos injetados e soltou um grande suspiro.
– Ah, suponho que devo dizer isto. Bem-vindo ao Acampamento Meio-Sangue. Pronto. Agora, não espere que eu esteja contente em vê-lo.
– Ahn, obrigado. – Logo me afastei um pouco dele, porque, se havia uma coisa que eu tinha aprendido com Gabe era reconhecer quando um adulto andou tomando umas e outras. Se o Sr. D era abstêmio, eu era um sátiro.
– Annabeth? – o Sr. Brunner chamou a menina loira.
Ela avançou e o Sr. Brunner nos apresentou.
– Esta mocinha cuidou de você até que ficasse bom, Percy. Annabeth, minha querida, por que não vai verificar o beliche de Percy? Vamos instalá-lo no chalé 11 por enquanto.
Annabeth disse:
– Claro, Quíron.
Ela provavelmente tinha a minha idade, talvez fosse uns cinco centímetros mais alta, e tinha a aparência muitíssimo mais atlética.
Com seu bronzeado intenso e o cabelo loiro cacheado, era quase exatamente como eu imaginava uma típica menina da Califórnia, a não ser pelos olhos, que arruinavam essa imagem. Eram surpreendentemente cinzentos, como nuvens de tempestade; bonito, mas também intimidadores, como se ela estivesse analisando o melhor modo de me derrubar em uma luta.
Ela deu uma olhada no chifre de minotauro em minhas mãos, então de novo para mim.
Imaginei que fosse dizer: Você matou um minotauro! Ou Uau, você é tão assustador!
Ou algo do tipo. Em vez disso, ela disse:
– Você baba enquanto dorme!
Depois saiu correndo pelo gramado, os cabelos loiros esvoaçando atrás dela.
– Então – disse, ansioso por mudar de assunto –, o senhor, ahn, trabalha aqui, Sr. Brunner?
– Sr. Brunner não – disse o ex-Sr. Brunner. – Lamento, era pseudônimo. Você pode me chamar de Quíron.
– Combinado. – Totalmente confuso, olhei para o diretor. – E Sr. D... significa alguma coisa?
O Sr. D parou de embaralhar as cartas. Olhou para mim como se eu tivesse acabado de arrotar alto.
– Rapazinho os nomes são coisas poderosas. Você simplesmente não sai por aí os usando sem motivo.
– Ah. Certo. Desculpe.
– Devo dizer, Percy – interrompeu o Quíron-Brunner –, que estou contente em vê-lo com vida. Já faz um bom tempo desde que fiz um atendimento domiciliar a um campista em potencial. Detestaria pensar que tinha perdido meu tempo.
– Atendimento domiciliar?
– O ano que passei na Academia Yancy para instruí-lo. Temos sátiros de prontidão na maioria das escolas, é claro. Mas Grover me alertou assim que o conheceu. Ele sentiu que você era especial, então decidi ir lá. Convenci o outro professor de latim a... ah, tirar uma licença.
Tentei me lembrar do começo do ano escolar. Parecia tanto tempo atrás, mas eu tinha uma vaga lembrança de outro professor de latim na minha primeira semana em Yancy.
Então, sem explicação, ele desapareceu e o Sr. Brunner assumiu a turma.
– Você foi a Yancy só para me ensinar? – perguntei.
Quíron assentiu.
– Honestamente, de inicio eu não tinha muita certeza a seu respeito. Contatamos a sua mãe, informamos que estávamos de olho em você, para o caso de estar pronto para o Acampamento Meio-Sangue. Mas você ainda tinha muito a aprender. Não obstante, chegou aqui vivo, e esse é sempre o primeiro teste.
– Grover – disse o Sr. D com impaciência –, vai jogar ou não?
– Sim, senhor! – Grover tremeu quando se sentou na quarta cadeira, embora eu não soubesse por que ele deveria ter tanto medo de um homenzinho gorducho de camisa havaiana com estampa de tigre.
– Você sabe jogar pinochle? – indagou o Sr. D olhando para mim com desconfiança.
– Infelizmente não – disse eu.
– Infelizmente não, senhor – disse ele.
– Senhor – repeti. Estava gostando cada vez menos do diretor do acampamento.
– Bem – ele me disse –, este é, juntamente com as lutas de gladiadores e o Pac-Man, um dos melhores jogos já inventados pelos seres humanos. Imaginava que todos os jovens civilizados conhecessem as regras.
– Estou certo de que o menino pode aprender – disse Quíron.
– Por favor – disse eu. – o que é este lugar? O que estou fazendo aqui? Sr. Brun... Quíron, por que iria à Academia Yancy só para me ensinar?
O Sr. D bufou.
– Fiz a mesma pergunta.
O diretor do acampamento deu as cartas. Grover se encolhia a cada vez que uma caía na sua pilha.
Quíron sorriu para mim de um modo compreensivo, como costumava fazer na aula de latim, como para me dizer que qualquer que fosse minha nota, eu era seu aluno mais importante. Ele esperava que eu tivesse a resposta certa.
– Percy – disse ele –, sua mãe não lhe contou nada?
– Ela disse... – Lembrei-me dos seus olhos tristes, olhando para o mar. – Ela me contou que tinha medo de me mandar para cá, embora meu pai quisesse que ela fizesse isso. Disse que, uma vez aqui, provavelmente não poderia sair. Queria me manter perto dela.
– Típico – disse o Sr. D – É assim que eles normalmente são mortos. Rapazinho, você vai fazer um lance ou não vai?
– O quê? – perguntei.
Ele explicou, impacientemente, como se faz um lance em pinochle, e eu fiz.
– Lamento, mas há coisas demais a contar – disse Quíron. – Receio que nosso filme de orientação não seja suficiente.
– Filme de orientação? – perguntei.
– Não – concluiu Quíron. – Bem, Percy. Você sabe que seu amigo Grover é um sátiro. Você sabe – ele apontou para o chifre na caixa de sapatos – que você matou o Minotauro. E não é um pequeno feito, rapaz. O que você pode não saber é que grandes forças estão em ação na sua vida. Os deuses – as forças que você chama de deuses gregos – estão muito vivos.
Olhei para os outros em volta da mesa.
Aguardei que alguém gritasse, Não! Mas tudo o que ouvi foi o Sr. D gritando:
– Oh, um casamento real. Truco! Truco! – Ele gargalhou enquanto contava os pontos.
– Sr. D – perguntou Grover timidamente –, se não for comê-la, posso ficar com sua lata de Diet Coke?
– Hein? Ah, está bem.
Grover mordeu um grande pedaço da lata de alumínio vazia e mastigou tristemente.
– Espere – eu disse a Quíron –, está me dizendo que existe algo como Deus.
– Bem, vamos lá – disse Quíron. – Deus – com D maiúsculo, Deus. Isso é outro assunto. Não vamos lidar com o metafísico.
– Metafísico? Mas você estava falando sobre...
– Ah, deuses, no plural, grandes seres que controlam as forças da natureza e os empreendimentos humanos; os deuses imortais do Olimpo. Essa é uma questão menor.
– Menor?
– Sim, muito. Os deuses que discutimos na aula de latim.
– Zeus – disse eu. – Hera. Apolo. Você quer dizer, esses. E, de novo, uma trovoada distante em um dia sem nuvens.
– Rapazinho – disse o Sr. D –, se eu fosse você, seria menos negligente quanto a ficar soltando esses nomes por aí.
– Mas são historias – disse eu. – São... mitos, para explicar os relâmpagos, as estações e tudo mais. Era nisso que as pessoas acreditavam antes de surgir a ciência.
– Ciência! – zombou o Sr. D. – E diga-me, Perseu Jackson – eu me encolhi quando ele disse meu nome verdadeiro, que nunca contara a ninguém –, o que as pessoas pensarão da sua “ciência” daqui a milhares de anos? Humm? Irão chamá-la de baboseiras primitivas. É isso o que irão pensar. Ah, eu adoro os mortais... ele não têm a menor noção de perspectiva. Acham que já chegaram tãããão longe. E chegaram, Quíron? Olhe para esse menino e diga-me.
– Percy – disse Quíron –, você pode escolher entre acreditar ou não, mas o fato é que imortal significa imortal. Pode imaginar isso por um momento, não morrer nunca? Existir, assim como você é, para toda a eternidade?
Eu estava prestes a responder, assim sem pensar, que parecia um negocio muito bom, mas o tom de voz de Quíron me fez hesitar.
– Você quer dizer, quer as pessoas acreditem em você ou não – disse eu.
– Exatamente – concordou Quíron. – Se você fosse um deus, gostaria de ser chamado de mito, de uma velha historia para explicar os relâmpagos? E se eu contasse a você, Perseu Jackson que um dia as pessoas vão chamar você de mito, criado apenas para explicar como menininhos podem sobreviver à perda de suas mães?
Meu coração disparou. Ele estava tentando me deixar zangado por alguma razão, mas eu não ia permitir que o fizesse. Eu disse:
– Eu não gostaria disso. Mas não acredito em deuses.
– Oh, é melhor mesmo – murmurou o Sr. D. – Antes que um deles o incinere.
Grover disse:
– P-por favor, senhor. Ele acaba de perder a mãe. Está em estado de choque.
– Uma sorte, também – resmungou o Sr. D, jogando uma carta. – Ruim mesmo é estar confinado a esse trabalho deprimente, com meninos que nem mesmo têm fé!
Ele acenou e uma taça apareceu sobre a mesa, como se a luz do sol tivesse momentaneamente se encurvado e transformado o ar em vidro. A taça se encheu de vinho tinto.
Meu queixo caiu, mas Quíron mal ergueu os olhos.
– Senhor D – advertiu –, as suas restrições.
O Sr. D olhou para o vinho e fingiu surpresa.
– Ora vejam. – Ele olhou para o céu e gritou: – Velhos hábitos! Desculpe!
Mais trovões.
O Sr. D acenou outra vez e a taça de vinho se transformou em uma nova lata de Diet Coke. Ele suspirou, infeliz, abriu a lata e voltou ao seu jogo de cartas.
Quíron piscou para mim.
– O Sr. D irritou o pai dele tempos atrás, sentiu-se atraído por uma ninfa dos bosques que tinha sido declarada inacessível.
– Uma ninfa dos bosques – repeti, ainda olhando para a Diet Coke como se tivesse vindo do cosmos.
– Sim – confessou o Sr. D. – O pai adora me castigar. Na primeira vez, Proibição. Horrível! Dez anos absolutamente terríveis! Na segunda vez... bem, ela era mesmo linda, não consegui ficar longe... na segunda vez, ele me mandou para cá. Colina Meio-Sangue. Acampamento de verão para moleques como você. “Seja uma influência melhor”, ele me disse. “Trabalhe com os jovens em vez de arrasar com eles.” Ah! Que injustiça.
O Sr. D parecia ter seis anos de idade, como uma criancinha fazendo pirraça.
– E... – gaguejei – o seu pai é...
– Di immotales, Quíron – disse o Sr. D. – Pensei que você tinha ensinado o básico a este menino. Meu pai é Zeus, é claro.
Repassei os nomes começados em D da mitologia grega. Vinho. A pele de um tigre. Os sátiros que pareciam estar todos trabalhando aqui. O modo como Grover se encolhia de medo, como se o Sr. D fosse seu senhor.
– Você é Dionisio – disse eu. – O deus do vinho.
O Sr. D revirou os olhos.
– Como eles dizem hoje em dia, Grover? As crianças dizem, “fala sério”?
– S-sim, Sr. D.
– Então, fala sério, Percy Jackson. Achou o quê; que eu fosse Afrodite?
– Você é um deus.
– Sim, criança.
– Um deus. Você.
Ele se virou para olhar diretamente para mim, e vi uma espécie de fogo arroxeado nos seus olhos, um indício de que aquele homenzinho reclamão e gorducho só estava me mostrando uma minúscula parte de sua verdadeira natureza. Tive visões de vinhas estrangulando descrentes até a morte, guerreiros bêbados insanos com o entusiasmo da batalha, marinheiros gritando enquanto suas mãos se transformavam em nadadeiras, os rostos se alongando em focinhos de golfinho. Eu sabia que, se o pressionasse, o Sr. D iria me mostrar coisas piores. Iria plantar uma doença no meu cérebro que me levaria a usar camisa-de-força pelo resto da vida.
– Gostaria de me testar, criança? – disse em voz baixa.
– Não. Não, senhor.
O fogo diminuiu um pouco. Ele voltou ao jogo de cartas.
– Acho que ganhei.
– Não exatamente Sr. D – disse Quíron. Ele baixou uma sequencia, contou os pontos e disse: – O jogo é meu.
Achei que o Sr. D fosse transformar Quíron em pó em sua cadeira de rodas, mas ele apenas suspirou pelo nariz, como se estivesse acostumado a ser batido pelo professor de latim. Pôs-se de pé, e Grover levantou-se também.
– Estou cansado – disse o Sr. D. – Acho que vou tirar uma soneca antes da cantoria desta noite. Mas primeiro, Grover, precisamos conversar de novo sobre seu desempenho para lá de imperfeito nessa missão.
O rosto de Grover cobriu-se de gotículas de suor.
– S-sim, senhor.
O Sr. D voltou-se para mim.
– Chalé 11, Percy Jackson. E cuidado com seus modos.
Ele se afastou para dentro da casa, com Grover o seguindo arrasado.
– Grover vai ficar bem? – perguntei a Quíron.
Quíron assentiu, embora parecesse um pouco perturbado.
– O velho Dionísio não está realmente zangado. Ele apenas detesta seu trabalho. Ele foi... ahn, confinado à Terra, pode-se dizer, e não pode aguentar ter de esperar mais um século antes de ser autorizado a voltar ao Olimpo.
– O Monte Olimpo – disse eu. – Você está me dizendo que realmente existe um palácio ali?
– Bem, agora há o Monte Olimpo na Grécia. E há o lar dos deuses, o ponto de convergência dos seus poderes, que de fato costumava ser no Monte Olimpo. Ainda é chamado de Monte Olimpo, por respeito às tradições, mas o palácio muda de lugar, Percy, assim como os deuses.
– Você quer dizer que os deuses gregos estão aqui? Tipo... nos Estados Unidos?
– Bem, certamente. Os deuses mudam com o coração do Ocidente.
– O quê?
– Vamos, Percy. O que vocês chamam de “civilização ocidental”. Você acha que é apenas um conceito abstrato? Não, é uma força viva. Uma consciência coletiva que ardeu brilhantemente por milhares de anos. Os deuses são parte dela. Você pode até dizer que eles são sua fonte ou, pelo menos, que estão ligados tão intimamente a ela que possivelmente não vão deixar de existir, a não ser que toda a civilização ocidental seja destruída. A chama começou na Grécia. Então, como você bem sabe... ou espero que saiba, já que foi aprovado no meu curso... o coração da chama se mudou para Roma, e assim fizeram os deuses. Ah, com nomes diferentes, talvez: Júpiter em vez de Zeus, Vênus em vez de Afrodite, e assim por diante; mas as mesmas forças, os mesmos deuses.
– E então eles morreram.
– Morreram? Não. O Ocidente morreu? Os deuses simplesmente se mudaram, para a Alemanha, para a França, para a Espanha, por algum tempo. Aonde quer que a chama brilhasse mais, lá estavam os deuses. Eles passaram vários séculos na Inglaterra. Tudo o que você precisa é olhar para a arquitetura. As pessoas não esquecem os deuses. Em todos os lugares onde reinaram, nos últimos três mil anos, você pode vê-los em pinturas, em estátuas, nos prédios mais importantes. E sim, Percy, é claro que agora eles estão nos Estados Unidos. Olhe para o símbolo do país, a águia de Zeus. Olhe para a estátua de Prometeu no Rockfeller Center, para as fachadas dos edifícios governamentais em Washington. Eu o desafio a encontrar qualquer cidade americana onde os olimpianos não estejam proeminentes expostos em vários locais. Goste ou não – e acredite, uma porção de gente não gostava muito de Roma também –, os Estados Unidos são agora o coração da chama. São a grande potência do Ocidente. E, portanto, o Olimpo é aqui. E nós estamos aqui.
Aquilo tudo foi demais para mim, especialmente o fato de que eu parecia estar incluído no nós de Quíron, como se fizesse parte do mesmo clube.
– Quem é você, Quíron? Quem... quem eu sou?
Quíron sorriu. Ele mudou de posição, como se fosse levantar da cadeira de rodas, mas eu sabia que era impossível. Era paralítico da cintura para baixo.
– Quem é você? – ele ficou pensativo. – Bem, essa é a pergunte que todos queremos ver respondida, não é? Mas, por enquanto, temos de lhe arranjar um beliche no chalé 11. Ali haverá novos amigos para conhecer. E tempo à vontade para as aulas amanhã. Alem disso, haverá guloseimas em volta da fogueira esta noite, e eu simplesmente adoro chocolate.
E então ele se levantou da cadeira de rodas. Mas havia algo de estranho no modo como ele fez isso. A manta caiu de cima das pernas, mas elas não se moveram. A cintura foi ficando mais longa, erguendo-se acima do cinto. De início, pensei que estivesse usando roupas de baixo muito compridas de veludo branco, mas à medida que ele foi se erguendo da cadeira, mais alto que qualquer homem, percebi que a roupa de baixo de veludo não era roupa de baixo; era a parte da frente de um animal, músculos e tendões sob um pelo branco e áspero. E a cadeira de rodas não era uma cadeira. Era algum tipo de recipiente, uma enorme caixa sobre rodas, e devia ser mágica, porque não havia como ela contê-lo inteiro. Uma perna saiu, comprida e com joelho saliente, com um grande casco polido. Depois outra perna dianteira, depois a parte traseira, e depois a caixa ficou vazia, nada além de uma casca de metal com um par de pernas humanas acoplado.
Olhei para o cavalo que acabara de pular da cadeira de rodas: um enorme corcel branco. Mas, onde devia estar o seu pescoço, estava a parte de cima do corpo do meu professor de latim, suavemente enxertada no tronco do cavalo.
– Que alívio – disse o centauro. – Fiquei tanto tempo confinado lá dentro que minhas juntas adormeceram. Agora venha, Percy Jackson. Vamos conhecer os outros campistas.
O Ladrão de Raios - Capítulo 4 - Minha mãe me ensina a tourear
Arrancamos noite adentro por estradas rurais escuras. O vento golpeava o Camaro. A chuva açoitava o para-brisa. Eu não sabia como minha mãe conseguia ver alguma coisa, mas ela mantinha o pé no acelerador.
Toda vez que um relâmpago produzia um clarão, eu olhava para Grover sentado ao meu lado no banco de trás e me perguntava se tinha ficado louco ou se ele estava usando algum tipo de calça felpuda. Mas não, o cheiro era o mesmo que eu lembrava das excursões do jardim de infância para o zoológico infantil – lanolina, como o de lã. O cheiro de um animal molhado de estábulo.
Tudo o que pude dizer foi:
– Então, você e minha mãe... se conhecem?
Os olhos de Grover moveram-se rapidamente para o espelho retrovisor, embora não houvesse carro nenhum atrás de nós.
– Não exatamente – disse ele. – Quer dizer, nunca nos encontramos pessoalmente. Mas ela sabia que eu estava observando você.
– Observando, a mim?
– Estava de olho em você. Cuidando que estivesse bem. Mas eu não estava fingindo ser seu amigo – acrescentou apressadamente. – Eu sou seu amigo.
– Ahn... o que é você, exatamente?
– Isso não importa neste momento.
– Não importa? Da cintura para baixo, o meu melhor amigo é um burro...
Grover soltou um agudo e gutural:
– Bééééé!
Eu já o tinha ouvido fazer aquele som antes, mas sempre achei que era um riso nervoso.
Agora me dava conta de que era mais um berro irritado.
– Bode! – exclamou.
– O quê?
– Eu sou um bode da cintura para baixo.
– Você acaba de dizer que isso não importa.
– Béééé! Alguns sátiros poderiam pisoteá-lo por causa de tamanho insulto!
– Opa. Espere. Sátiros. Você quer dizer como... os mitos do Sr. Brunner?
– Aquelas velhas na banca de frutas eram um mito, Percy? A Sra. Dodds era um mito?
– Então você admite que havia uma Sra. Dodds!
– É claro.
– Então por que...
– Quanto menos você soubesse, menos monstros atrairia – disse Grover, como se aquilo fosse perfeitamente óbvio. – Nós pusemos a Névoa diante dos olhos humanos. Tínhamos esperanças de que você achasse que a Benevolente era uma alucinação. Mas não adiantou. Você começou a perceber quem você é.
– Quem eu... espere um minuto, o que você quer dizer?
O estranho rugido ergueu-se novamente em algum lugar atrás de nós, mais perto do que antes. O que quer que estivesse nos perseguindo ainda estava na nossa cola.
– Percy – disse minha mãe –, há muito a explicar e não temos tempo suficiente.
Precisamos pôr você em segurança.
– Em segurança como? Quem está atrás de mim?
– Ah, nada demais – disse Grover, obviamente ainda ofendido com o comentário sobre o burro. – Apenas o Senhor dos Mortos e alguns dos seus asseclas mais sedentos de sangue.
– Grover!
– Desculpe Sra. Jackson. Poderia dirigir mais depressa, por favor?
Tentei envolver minha mente no que estava acontecendo, mas não consegui. Sabia que aquilo não era um sonho. Eu não tinha imaginação. Jamais poderia sonhar algo tão estranho.
Minha mãe fez uma curva fechada para a esquerda. Desviamos para uma estrada mais estreita, passando com velocidade por casas de fazendas às escuras, colinas cobertas de árvores e placas que diziam “COLHA SEUS PRÓPRIOS MORANGOS” sobre cercas brancas.
– Aonde estamos indo? – perguntei.
– Para o acampamento de verão de que falei. – A voz de minha mãe estava tensa; por mim, ela estava tentando não parecer assustada. – O lugar para onde seu pai queria mandá-lo.
– O lugar para onde você não queria que eu fosse.
– Por favor, querido – implorou ela. – Isso já é bem difícil. Tente entender. Você está em perigo.
– Porque umas velhas senhoras cortaram um fio de lã.
– Aquilo não eram velhas senhoras – disse Grover. – Eram as Parcas. Você sabe o que significa... o fato de elas aparecerem na sua frente? Elas só fazem isso quando você está prestes a... quando alguém está prestes a morrer.
– Epa! Você disse “você”.
– Não, eu não disse. Eu disse, “alguém”.
– Você quis dizer “você”. Ou seja, eu.
– Eu quis dizer você como quem diz “alguém”. Não você, Percy, mas você, qualquer um.
– Meninos! – disse minha mãe.
Ela puxou o volante com força para a direita e eu tive um vislumbre de um vulto do qual ela se desviara – uma forma escura e ondulada, agora perdida na tempestade atrás de nós.
– O que foi aquilo? – perguntei.
– Estamos quase lá – disse minha mãe ignorando a pergunta. – Mais um quilômetro e meio. Por favor. Por favor. Por favor.
Eu não sabia onde era lá, porém me vi inclinando-me para a frente na expectativa, querendo que chegássemos logo.
Do lado de fora, nada além de chuva e escuridão – o tipo de campos vazios que a gente vê quando vai para o extremo de Long Island. Pensei na Sra. Dodds e no momento em que ela se transformou naquela coisa com dentes pontiagudos e asas de couro. Meus membros ficaram amortecidos de choque retardado. Ela realmente não era humana. E pretendia me matar.
Então pensei no Sr. Brunner... e na espada que ele jogara para mim. Antes que eu pudesse perguntar a Grover sobre aquilo, os cabelos de minha nunca se arrepiaram.
Houve um clarão ofuscante, um Bum! De fazer bater o queixo, e o carro explodiu.
Lembro-me de ter me sentido sem peso, como se estivesse sendo esmagado, frito e lavado com uma mangueira, tudo ao mesmo tempo.
Descolei minha testa do encosto do assento do motorista e disse:
– Ai.
– Percy! – gritou minha mãe.
– Estou bem...
Tentei sair do estupor. Eu não estava morto,o carro não explodira de verdade. Tínhamos caído em uma vala. As portas do lado do motorista estavam enfiadas na lama. O teto se abrira como uma casca de ovo e a chuva se derramava para dentro.
Relâmpago. Era a única explicação. Tínhamos voado pelos ares, para fora da estrada.
Ao meu lado no assento traseiro havia uma grande massa informe e imóvel.
– Grover!
Ele estava caído de lado, com sangue escorrendo do canto da boca. Sacudi seu quadril peludo, pensando: Não! Mesmo que você seja metade animal de quintal, ainda é meu melhor amigo, e não quero que morra!
Então ele gemeu:
– Comida – e eu soube que havia esperança.
– Percy – disse minha mãe –, temos de... – Ela titubeou.
Olhei para trás. Num clarão de relâmpago, através do para-brisa traseiro salpicado de lama, vi um vulto andando pesadamente na nossa direção no acostamento da estrada.
Aquela visão fez minha pele formigar. Era a silhueta de um sujeito enorme, como um jogador de futebol americano. Parecia estar segurando uma manta por cima da cabeça. A metade superior dele era volumosa e indistinta. As mãos erguidas davam a impressão de que ele tinha chifres.
Engoli em seco.
– Quem é...
– Percy – disse minha mãe, extremamente séria. – saia do carro.
Ela se jogou contra a porta do lado do motorista. Estava emperrada na lama. Tentei a minha. Emperrada também. Desesperadamente, ergui os olhos para o buraco no teto.
Poderia ser uma saída, mas as bordas estavam chiando e fumegando.
– Saia pelo lado do passageiro! – disse minha mãe. – Percy, você tem de correr. Está vendo aquela árvore grande?
– O quê?
Outro clarão de relâmpago e pelo buraco fumegante no teto eu vi a árvore a que ela se referia: um enorme pinheiro, do tamanho de uma arvore de Natal da Casa Branca, no topo da colina mais próxima.
– Aquele é o limite da propriedade – disse minha mãe. – Passe daquela colina verá uma grande casa de fazenda no fundo do vale. Corra e não olhe para trás. Grite por ajuda. Não pare enquanto não chegar à porta.
– Mamãe, você também vem.
O rosto dela estava pálido, os olhos tristes como quando ela olhava para o oceano.
– Não! – gritei. – Você vem comigo. Ajude-me a carregar o Grover.
– Comida! – gemeu Grover, um pouco mais alto.
O homem com a manta na cabeça continuou indo em nossa direção, grunhindo e bufando. Quando ele chegou mais perto, percebi que não podia estar segurando uma manta acima da cabeça porque as mãos – enormes e carnudas – balançavam ao seu lado.
Não havia manta nenhuma. O que queria dizer que a massa volumosa e indistinta que era grande demais para ser sua cabeça... era a sua cabeça. E as pontas que pareciam chifres...
– Ele não nos quer – disse minha mãe. – Ele quer você. Além disso, não posso ultrapassar o limite da propriedade.
– Mas...
– Não temos tempo, Percy. Vá. Por favor.
Então fiquei zangado – zangado com a minha mãe, com Grover, o bode, com a coisa chifruda que se movia pesadamente em nossa direção, de modo lento e calculado como... como um touro.
Passei por cima de Grover e empurrei a porta, que se abriu para chuva.
– Nós vamos juntos. Venha, mãe.
– Eu já disse que...
– Mamãe! Eu não vou abandonar você. Ajuda aqui com Grover.
Não esperei pela resposta dela. Eu me arrastei para fora do carro, puxando Grover comigo. Ele era surpreendentemente leve, mas eu não poderia tê-lo carregado para muito longe se minha mãe não tivesse ido me ajudar.
Juntos, pusemos os braços de Grover em nossos ombros e começamos a subir a colina aos tropeções, com o capim molhado na altura de cintura.
Ao olhar relance para trás, tive minha primeira visão clara do monstro. Tinha, fácil, mais de dois metros, e os braços e pernas pareciam algo saído da capa de uma revista. Músculos – bíceps e tríceps saltados e mais um monte de outros ceps, todos estufados como bolas de beisebol embaixo de uma pele cheia de veias. Ele usava roupas, a não ser cuecas – branquíssimas, da marca Fruit of the Loom –, o que teria sido engraçado não fosse o fato de a parte superior de seu corpo ser tão assustadora. Pelos marrons e grossos começaram na altura do umbigo e iam ficando mais espessos à medida que chegavam aos ombros.
Seu pescoço era uma massa de músculos e pelos que levavam à enorme cabeça, que tinha um focinho tão comprido quanto meu braço, narinas ranhentas com um reluzente anel de bronze, olhos pretos cruéis e chifres – enormes chifres preto-e-branco com pontas que você não conseguiria fazer nem num apontador elétrico.
Reconheci o monstro muito bem. Tinha sido uma das primeiras historias que o Sr. Brunner nos contara. Mas ele não podia ser real.
Pisquei os olhos para desviar a chuva.
– Aquele é...
– O filho de Pasífae – disse minha mãe. – Gostaria de ter sabido antes o quanto desejaram matar você.
– Mas ele é o Mino...
– Não pronuncie o nome – advertiu ela. – Os nomes têm poder.
O pinheiro ainda estava longe demais – pelo menos cem metros colina acima.
Dei outra olhada para trás.
O homem-touro se curvou por cima de nosso carro, olhando pelas janelas – ou não exatamente olhando. Era mais como farejar, fuçar. Eu não sabia muito bem por que ele se dava a esse trabalho, já que estávamos a apenas quinze metros de distancia.
– Comida? – gemeu Grover.
– Shhh – fiz eu. – Mamãe, o que ele está fazendo? Não está nos vendo?
– Sua visão e sua audição são péssimas – disse ela. – Ele se orienta pelo cheiro. Mas vai perceber onde estamos logo, logo.
Como que na deixa, o homem-touro bramiu de raiva. Ele agarrou o Camaro de Gabe pela capota rasgada, o chassis rangia e gemia. Ergueu o carro acima da cabeça e atirou-o na estrada. Aquilo se chocou contra o asfalto molhado e deslizou em meio a um chuveiro de fagulhas por cerca de quinhentos metros antes de parar. O tanque de gasolina explodiu.
Nem um arranhão, lembrei-me de Gabe dizendo.
Oops.
– Percy – disse minha mãe. – Quando ele nos vir, vai atacar. Espere até o ultimo segundo, depois saia do caminho. Ele não consegue mudar de direção muito bem quando já está atacando. Você entendeu?
– Como você sabe tudo isso?
– Estou preocupada com um ataque há muito tempo. Devia ter esperado por isso. Fui egoísta, mantendo você perto de mim.
– Mantendo-me perto de você? Mas...
Outro bramido de raiva e o homem-touro começou a subir pesadamente a colina.
Tinha nos farejado.
O pinheiro estava a apenas mais alguns metros, mas a colina era cada vez mais íngreme e escorregadia, e Grover ficava mais pesado.
O homem-touro se aproximava. Mas alguns segundos e estaria em cima de nós.
Minha mãe devia estar exausta, mas carregou Grover.
– Vá, Percy! Vá sozinho! Lembre-se do que eu disse.
Eu não queria me separar, mas tive a sensação de que ela estava certa – era nossa única chance. Pulei para esquerda, virei-me e vi a criatura avançando em minha direção. Os olhos pretos brilhavam de ódio. Fedia a carne podre.
Ele inclinou a cabeça e atacou, aqueles chifres afiados como navalhas apontados diretamente para o meu peito.
O medo no meu estômago me deu vontade de disparar, mas isso não daria certo. Eu jamais poderia correr mais que aquela coisa. Então fiquei parado e, no último momento, saltei para o lado.
O homem-touro passou por mim a toda como um trem de carga, depois bramiu de frustração e se virou, mas dessa vez não contra mim, mas contra minha mãe, que estava acomodando Grover sobre a grama.
Tínhamos chegado ao topo da colina. Embaixo, do outro lado, pude ver um vale, bem como minha mãe dissera, e as luzes de uma casa de fazenda tremeluzindo amarelas através da chuva. Mas estava a oitocentos metros de distância. Nunca conseguiríamos chegar lá.
O homem-touro roncou, escavando o chão. Ficou olhando para minha mãe, que recuava lentamente colina abaixo, de volta para estrada, tentando afastar o monstro de Grover.
– Corra, Percy! – disse ela. – Não posso passar daqui. Corra!
Mas fiquei lá parado, paralisado de medo, enquanto o monstro a atacava. Ela tentou sair de lado, como me dissera para fazer, mas o monstro tinha aprendido a lição. Jogou a mão para frente e agarrou-lhe o pescoço quando ela tentou escapar. Ele a ergueu enquanto ela lutava, chutando e dando murros no ar.
– Mamãe!
Então, com um rugido furioso, o monstro fechou os punhos em volta do pescoço da minha mãe e ela se dissolveu diante dos meus olhos, fundindo-se em luz, uma forma dourada tremeluzente, como uma projeção holográfica. Um clarão ofuscante, e ela simplesmente... se foi.
– Não!
A raiva substituiu o medo. Uma nova força ardeu em meus membros – a mesma onda de energia que me veio quando a Sra. Dodds mostrou as garras.
O homem-touro foi na direção de Grover, que estava deitado na grama, indefeso. O monstro se curvou, fungando meu melhor amigo como se estivesse prestes a erguê-lo dali e fazê-lo se dissolver também.
Eu não podia permitir aquilo.
Tirei minha capa de chuva vermelha.
– Ei! – gritei, agitando a capa e correndo para um lado do monstro. – Ei, estúpido! Monte de carne moída!
– Raaaarrrrr ! – O monstro virou-se para mim sacudindo seus punhos carnudos.
Eu tive uma ideia – uma ideia boba, porém melhor do que não pensar em nada. Encostei as costas no grande pinheiro e agitei a capa vermelha na frente do homem-touro, pensando em pular fora do caminho no ultimo momento.
Mas não foi assim que aconteceu.
O homem-touro atacou depressa demais, os braços estendidos para me agarrar qualquer que fosse o lado para onde eu tentasse me esquivar.
O tempo começou a passar mais devagar.
Minhas pernas travaram. Eu não podia pular para o lado, assim saltei direto para cima, usando a cabeça da criatura como trampolim, girei o corpo no ar e caí sobre seu pescoço.
Como eu fiz aquilo? Não tive tempo para descobrir. Um milissegundo depois a cabeça do monstro chocou-se contra a árvore e o impacto quase fez meus dentes saltarem da boca.
O homem-touro cambaleou de um lado para outro tentando se livrar de mim. Segurei com força em seus chifres para não ser arremessado. Os trovões e os relâmpagos ficavam mais fortes. A chuva caía em meus olhos. O cheiro de carne podre queimava minhas narinas.
O monstro se sacudia e corcoveava como um touro de rodeio. Poderia simplesmente ter chegado para trás e me esmagado completamente na árvore, mas eu começava a perceber que aquela coisa só tinha uma direção: para frente.
Enquanto isso, Grover começou a gemer na grama. Quis gritar para ele ficar calado, mas do jeito que estava sendo jogado de um lado para o outro, se abrisse a boca deceparia minha própria língua com uma mordida.
– Comida! – gemeu Grover.
O homem-touro virou-se para ele, escavou o chão novamente e se preparou para atacar.
Pensei em como ele havia espremido a vida para fora de minha mãe, como a fizera desaparecer num clarão de luz, e a raiva me abasteceu como um combustível de alta potência. Agarrei um dos chifres com ambas as mãos e puxei para trás com toda a minha força. O monstro se retesou, soltou um grunhido de surpresa, e então... pléc!
O homem-touro berrou e me atirou pelos ares. Aterrissei de costas na grama. Minha cabeça bateu contra uma pedra. Quando me sentei, minha visão estava embaçada, mas eu tinha um chifre nas mãos, um osso partido do tamanho de uma faca.
O monstro atacou.
Sem pensar, rolei para o lado e me levantei de joelhos. Quando ele passou a toda velocidade, enterrei o chifre quebrado bem na lateral de seu corpo, logo abaixo da caixa torácica peluda.
O homem-touro urrou em agonia. Debateu-se, rasgando o peito com suas garras, e depois começou a se desintegrar – não como minha mãe, em um clarão dourado, mas como areia se esfarelando, carregada pelo vento aos pedaços para longe, do mesmo modo como a Sra. Dodds se desintegrara.
O monstro se fora.
A chuva tinha parado. A tempestade ainda rugia, mas somente a distância. Eu cheirava a gado e meus joelhos tremiam. Minha cabeça parecia que ia se partir ao meio. Estava fraco, assustado e tremia de tristeza. Acabara de ver minha mãe se desvanecer. Queria me deitar e chorar, mas havia Grover, precisando de minha ajuda, portando consegui erguê-lo e descer cambaleando para o vale em direção às luzes da casa. Eu estava chorando, chamando minha mãe, mas me agarrei a Grover – eu não ia deixá-lo partir.
Minha última lembrança é ter desmaiado numa varanda de madeira, olhando para um ventilador de teto que girava acima de mim, mariposas voando em volta de uma luz amarela, e as expressões austeras e familiares de um homem barbudo e uma menina bonita, com cabelos loiros encaracolados como os de uma princesa. Os dois olharam para mim e a menina disse:
– É ele. Tem de ser.
– Silêncio, Annabeth – disse o homem. – Ele ainda está consciente. Traga-o para dentro.
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